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sexta-feira, 30 de março de 2018

Noites Quentes – Capítulo 3 _ Anjo ou demônio?

Fonte: google imagem

Marcela era natural do Goiás, nascera em uma cidadezinha exprimida entre a rodovia e a beira cortada de uma serra. Os pais, Reginaldo e Márcia, tinham um sitiozinho onde criavam porcos, galinhas e cultivavam uma horta. O que era produzido no sítio não era muito, mas o suficiente para sobreviverem naquele lugarzinho sem muitas perspectivas de crescimento.
Ela era a irmã mais velha de uma prole de quatro irmãs, por isso fora obrigada desde cedo a aprender dar banho nas irmãzinhas, coisa que ela fazia com um misto de revolta e prazer. Além disso, tinha que fazer comida, arrumar a casa e ajudar as pequenas nas tarefas da escola. O pai e a mãe passavam o dia mexendo numa coisa e noutra. Os únicos prazeres que tinham era aquele proporcionado pelo corpo cansado do parceiro, à noite, na cama, que ficava no quarto ao lado do quarto das meninas.
A intimidade dos pais podia ser observada por uma fresta na parede de madeira que Marcela disfarçava pendurando roupas em um prego. A curiosidade pueril em saber o motivo dos gemidos da mãe progrediu para um voyeurismo obsessivo. Sua atenção voltou-se desde cedo para o corpo da mãe, que, apesar das quatro gestações, mantinha-se firme. Os seios fartos e a vulva encoberta por pelos fascinavam a garota prepurbere, que sonhava com as transformações pelas quais seu corpo passaria. Achava o pai feio. Vermelho demais em algumas partes do corpo gordo e branco demais em outras. O abdômen muito distendido lembrava a mãe grávida de muitos meses.
Quando os pais finalmente apagavam as luzes do quarto, ela ia deitar-se. Dividia a cama com Alice, a menorzinha de dois anos por quem desenvolvera uma preferência materna. Queria ter filhos, mas a ideia de ter um homem barrigudo e vermelho ao seu lado na cama, não a agradava muito. Queria ser como sua mãe, bonita, alta, magra, com seios grandes e muitos pelos na... Adormecia com esses pensamentos e tinha muitos sonhos com mulheres bonitas se despindo enquanto ela observava. Mulheres com seios de todos os tamanhos, pequeninos, médios, grandes como os da mãe. Ao acordar, lamentava-se por não ter a presença de outras mulheres mais velhas na casa para ela poder observar, comparar com a mãe. As irmãs eram todas iguais a ela. Se tivesse ao menos uma irmã mais velha, uma prima!
Foi no verão de 2007 que seu desejo se realizou. Ester, filha de um irmão de seu pai, que morava no Pará, foi passar as férias de julho no sítio do tio. Era moça já formada. A blusa decotada, deixando a mostra metade dos seios protegidos por um sutiã vermelho, não chamou a atenção apenas dos olhos do tio, que disfarçava a observação perguntando notícias sobre o irmão. Marcela mantinha os olhos fixo de curiosidade, sem nenhum disfarce. A prima, percebendo os olhares de ambos, disse com ar brincalhão abraçando a menina:
_ Eu já tive essa mesma curiosidade. Um dia você também vai ter isso, disse apalpando os seios com as mãos.
A menina sorrio alegre. O tio pigarreou e saiu ajeitando o chapéu na cabeça e dando ordens.
_ Marcela, ajeita tua prima lá na cama ao lado da sua. As outras meninas vão ter que dormir jutas numa cama.
Marcela quase delirou quando viu a prima se despindo no quarto para tomar um banho. Seus olhos exploraram o corpo inteiro. Estranhou a ausência de pelos como a mãe.
_ Você não tem! Deixou escapulir a exclamação.
A prima fechou a cara misturando com riso.
_ Não tenho o que, menina!
Tímida, a menina apontou para as genitálias de Ester.
_ Ai, igual a mãe.
Ester riu. Aproximou-se da menina.
_ Me dá aqui sua mão. Veja. Sentiu? Eu tenho, só que eu depilo, entendeu?
_ Por quê?     
Ester enrolou-se na toalha, enquanto explicava as questões higiênicas da depilação.
_ Deixa eu pegar de novo!
_ Não, meu amor, não pode ficar pegando. Foi só para te mostrar como é. Cuida, vai olhar tua irmãzinha, deixa eu tomar meu banho.
À noite, quando a prima dormiu profundamente, vencida pelo cansaço da viagem, Marcela pode matar outras curiosidades sobre o corpo da prima.
A companhia da prima foi muito agradável e mudou um pouco a rotina no sítio. Ela ajudava Marcela a cuidar da casa, das meninas. Passeavam pelo sítio e tomavam banho no açude. O lugar passou a ser visitado pelos vizinhos que vinham conhecer a sobrinha do compadre. Os rapazes vinham em companhia. Conversavam na porta da casa até as nove ou dez horas quando se despediam e iam para suas casas.  Marcela estava sempre grudada em Ester, esqueceu um pouco a irmãzinha. Sentia algo estranho quando a via afastando-se com algum rapaz para se despedir na hora de ir embora. Não era de bom grado quando a prima dizia:
_ Meu amor, vai lá no quarto ver se tua irmãzinha está bem. Acho que deixei a janela aberta, vai olhar.
Marcela sabia que era apenas um pretexto para ela sair de perto. Saia meio zangada e deitava-se virada para o lado oposto da cama de Ester. Quando ela voltava, muitas vezes, a garota já havia dormido remoendo-se com seus sentimentos estranhos. Porém, quando estava acordada que ouvia a porta se abrindo todo o pesar de seu coraçãozinho se dissipava. A prima dizia:
_ Ainda acordada, meu amor? Vai dormir, menina. Dava-lhe um beijinho no rosto acompanhado de uma boa noite.
   Nesses momentos sua alma se inundava de alegria. Sentia-se tão leve. Tão alegre e feliz. Era como se a cama de repente começasse a flutuar em um rio de águas bem tranquilas. Ela podia até ouvir o barulho das pequenas correntezas. E o rio descendo, descendo, e ela flutuando, flutuando...
Quando a prima foi embora, foi um desconsolo. A menina entrou mesmo em depressão. Os pais acharam que fosse alguma doença. Levaram-na a um hospital da cidade próxima, no entanto o médico nada descobriu.
_ Isso é coisa da idade, mesmo. Vai ver é uma paixonite por algum garoto da escola. Converse com ela, mãe.
A mãe prometeu-lhe umas lapadas se inventasse de namorar naquela idade.
_ Onde é que já se viu? Fazer a gente gastar dinheiro por causa de bobagem! Era só o que me faltava!
A menina se retraiu. Resignou-se a cuidar mecanicamente das irmãs. Os pais deram o caso por encerrado, tanto foi que nem notaram que a menina perdia peso.
Dois meses depois, apareceu pelo sítio um homem bem vestido. Dizia-se representante de uma empresa no ramo do agronegócio que estava adquirindo terras na região para plantar milho e soja. Pediu para botarem preço no sítio que eles comprariam.
Reginaldo pediu um tempo para pensar. O homem disse que voltaria na próxima semana.
O lugar virou um alvoroço! Todos os pequenos proprietários sonhavam pegar uma bolada de dinheiro, mudar para o Norte, comprar uma terra grande para criar gado. Virar fazendeiro.
    O pai de Marcela telefonou para o irmão que morava no sudeste do Pará, pediu-lhe uma opinião. O irmão foi favorável a venda.
_ Ponha preço bom na terra, homem. Esse povo anda é lavando dinheiro desviado nas falcatruas da política. Pode botar o dobro do preço que eles pagam. Nada, nada, esse teu sitiozinho ai se transforma em cinquenta alqueires de terra aqui. E tua ainda compra um gadim pra começar.
Reginaldo decidiu. Vendera a terra como o irmão havia aconselhado.
Ao saber que iriam morar na mesma cidade que a prima Ester, Marcela voltou à vida.
Foram dois meses até a transação se completar, arrumarem as coisas e subir o mapa rumo ao sudeste paraense. Morar em uma cidade de beira de estrada e virar fazendeiro.
A empolgação de Marcela não durou muito, pois ao chegarem à cidade de destino, encontrou a prima grávida de um namorado com quem estava agora morando junto.
Reginaldo, depois de sofrer com a poaca no verão, lama e atoleiros no inverno, descobriu que vida de pequeno fazendeiro naquela região tão conflituosa estava longe de ser o sonho que muitos visualizaram. Comprou, sem saber, uma terra grilada. Quando os trabalhadores rurais fizeram acampamento do lado de fora de sua cerca, foi que descobriu serem falsos todos os documentos que o antigo proprietário lhe passou. O caso foi se arrastar na justiça. Ele teve que se virar para não passar fome com a família.
A menina cresceu sufocando os sentimentos que tivera pela prima. Já adolescente foi que compreendeu que sentimentos eram aqueles. Quem lhe fez entender foi Marina, uma amiga da escola, com quem manteve um namoro, escondido de todos, por dois anos. Até que os pais de Marina descobriram o caso. Fizeram duras ameaças a Marcela. Ameaçaram contar tudo para os pais dela e fazer um escândalo na rua.
Marina, chorando, despediu-se. Disse que iria embora para São Paula. Ia morar com a avô e fazer faculdade.
Marcela ficou isolada e calada como da vez lá no sítio.
Foi por esse tempo que os vizinhos morreram em um acidente deixando uma filha três anos mais velha que Marcela e dois filhos gêmeos de sete anos de idade. Quando Marcela soube a vizinha órfã decidira ficar morando na casa e tomando conta dos irmãos e que estava precisando de alguém para ajudar cuidar das crianças.
As coisas foram arranjadas. E, como já sabemos, Marcela tornou-se cada vez mais intima de Rebeca.
***
_ Você não está, bem - dizia enquanto acarinhava os cabelos da amiga – se quiser eu posso dormir hoje novamente com você.     

VEJA 






quinta-feira, 29 de março de 2018

A VILA - Segundo Epsódio: Lugar da Noite Sem Fim

Fonte:google imagem
AUTOR: A. L. Queiroz

O homem pôs-se a explicar o que acontecera.
- Esse lugar, onde vocês chegaram, não existe no mundo real. Quer dizer, existir existe, só que é como se fosse uma versão do mal de uma pequena cidade. A essas horas, os corpos de vocês duas devem estar em algum hospital da cidade, numa Unidade de Tratamento Intensivo, que a gente chama de UTI.
Sthefany parecia que ia perfurar meu braço com suas unhas de tanto apertar de medo. Ela tremia mesmo. Eu tentei me controlar para mostrar confiança a ela, ver se ela se acalmava um pouco. Eu havia aprendido que o medo faz aumentar o sofrimento, pois nos faz imaginar como reais coisas que não existem. Mas, confesso que aquela história começou a me sufocar.
O homem, após uma pausa para tomar uma golada de café, fazendo descer garganta abaixo um biscoito velho que mastigava, continuou.
_ Aqui parece um estado entre a vida e a morte. Vocês com certeza vinham observando esse local quando aconteceu o acidente. Tiravam fotos da paisagem pela janela do carro.
_ Sim, achávamos o lugar um pouco esquisito, por isso fazíamos umas selfies só para zuar do lugar.  
O homem fez gestos com as mãos e a boca, como quem diz “Então, foi isso. Não deviam ter feito”.
_ As mentes de vocês, ou seja, a consciência, foram capturadas por essa criatura terrível, vingativa, que chamamos de bruxa. Achamos que é um demônio que escapou de outro lugar e resolver criar aqui, nesse entremeio, o seu reino particular de horrores. Quando os corpos desfalecerem de vez, lá na vida real, suas consciências, isto é, as suas projeções nesse mundo, desaparecerão.
_ E vai para onde?
_ Ah, isso não sabemos ao certo. A gente sempre ouviu falar em céu, inferno; mas ninguém sabe o que isso realmente quer dizer. O certo é que vamos para algum lugar depois daqui.
Houve um perturbador momento de silêncio, quebrado pelo barulho de bater de asas como ouvimos quando estávamos na rua.
O homem olhou-nos confiante e dizendo para não nos preocuparmos, pois a criatura não entraria ali.
Eu quis saber como ele sabia de tudo aquilo.
_ Alguns, disse ele sem alterar um gesto reflexivo parecendo olhar no infinito, possuem visões do mundo anterior, da vida lá fora, o mundo real. As visões são sempre as mesmas. Estamos deitados em uma cama, ligados a vários equipamentos, reconhecemos pessoas ao nosso redor. Quando tentamos fazer contato com essas pessoas, a bruxa nos traga novamente com seu poder maligno e voltamos para onde estávamos. Assim vai indo. Nosso corpo vai ficando fraco, debilitado. Vamos enfraquecendo aqui também. Chega um momento que não aguentamos mais caminhar, nem segurar as coisas. A nossa consciência aqui, é uma projeção de nosso corpo debilitado lá no mundo real. O desaparecimento aqui, acontece quando o corpo morre lá, do outro lado.
De repente, Sthefany caiu rolando no chão segurando fortemente a sua cabeça com as mãos. Eu me joguei por cima dela, desesperada, tentando entender o que acontecia.
_ Ah, eles estão operando o corpo dela. Com certeza ela sofreu traumatismo craniano. Estão, inutilmente, tentando salvá-la. Como eu disse, ninguém consegue sair daqui.
Sthefany gritava e se contorcia.
_ Minha amiga, eu vou te ajudar, se acalme!
O homem mantinha o mesmo ar reflexivo, tragando lentamente seu café que nunca acabava.
_ Não há nada que possamos fazer, minha querida. Se lá no mundo real a cirurgia der certo, ela ficará bem, aqui. Se não der...
_ O que acontece?
_ Se não der certo, ela desaparecerá.
Ela perdia sangue. Muito sangue saia de suas narinas, pelos couro cabeludo. Seu corpo fora ficando frio, gelado. Eu entrei em desespero mais uma vez e comecei a chorar abraçada a minha amiga. Pedi um pano com o qual pudesse limpar o rosto dela. O homem estendeu-me as mãos com algumas toalhas. Parece até que já aguardava meu pedido.
Depois de quase umas três horas, sei lá! Finalmente ela parou de sangrar. Parecia dormindo. Assim ficou por um longo tempo. O homem ensinou-me como usar a velha espingarda. Disse que precisava sair um pouco. Resolver algumas coisas e ir em busca de alguma coisa para comermos. Deu-me alguns lençóis e travesseiros para eu ajeitar Sthefany.
_ Durma, descanse, disse-me com um leve riso no canto da boca.
_ Ainda demora para amanhecer nesse lugar, moço?
Ele havia terminado de por uma capa escura e um chapéu preto.

_ Se demora a amanhecer? Repetiu minha pergunta com um certo ar de deboche. Aqui nunca amanhece, minha querida. Aqui é o lugar da noite eterna. Saiu batendo a porta e gritando para eu colocar a travanca.

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

NOITES QUENTES

Fonte: google imagem



FICHA: Uma série em cinco capítulos -

Classificação: Romance e Aventura - TEMA: Homoafetividade

Cap. 1: Sozinha

Todo dia era aquela mesma rotina maçante. Acordava às seis horas. Preparava o lanche para os irmãos. Acordava um, mandava para o banho. Acordava o outro. A mesma coisa. Depois que os dois estavam no colégio - uma escola pública da periferia da cidade, com todos os problemas que uma escola desse tipo tem – era hora de dar duro.

O serviço de moto táxi não era o mais apropriado para uma garota de dezoito anos, mas fora a única coisa que conseguira. Desde que perdera o pai e a mãe em um acidente de trânsito. Rebeca precisou assumir as funções de pai e mãe de seus irmãos caçulas, os gêmeos Paulo e Saulo, de apenas sete anos.

O pai só lhe deixou dívidas. As únicas coisas que ficaram foram a casa onde moravam, que apesar de pequena, era bem confortável, e uma moto, CG de 150 cilindradas. O automóvel da família fora totalmente destruído. Deu perda total. Até que apareceram uns tios com propostas de levá-la para morar em outra cidade. Os gêmeos ficariam um com a velha avó e outro com uma tia.

- Vamos, minha filha, vai ser bom para você espairecer. Sua prima tem tua idade, vocês vão ser amigas.

Rebeca avaliou bem a situação. Não conhecia direito o tio, nem confiava em seus olhares atravessados e demorados em direção dela. A prima da qual ele falava parecia uma esnobe. Estava no grupo da família, mas nunca escrevera uma única palavra. Nem mesmo quando todos os primos espalhados por vários estados lhe fizeram elogios. Além disso, não lhe agradava a ideia de ver seus irmãos separados. Seria outro sofrimento para eles. Por isso, enquanto os tios decidiam por seu destino e pelo valor do imóvel e da moto, já quase fechando negócio entre si, ela anunciou sua decisão:

- Nem eu, nem meus irmãos sairemos daqui. Ninguém vai nos tirar da nossa casa. Eu cuidarei deles.

A velha avó, talvez a mais bem intencionada da história, quase teve um infarto.

- Minha filha, isso é loucura! Onde é que já se viu! Uma moça morar sozinha com dois irmãos pequenos! Como é que vocês vão sobreviver?

Rebeca sentou-se ao lado da velha e pôs-se a acalmá-la. Disse que ficaria tudo bem. Ia dar um jeito. Arrumar um emprego. Não precisava se preocupar. A velha se propôs a morar com ela. Ao que Rebeca agradeceu, pois isso significaria a presença de uma das tias com a qual nunca se dera bem. A mulher vivia enfurnada numa igreja achando o demônio em tudo e em todos.

- Não vovô, eu agradeço; mas realmente não precisa.

Os tios ainda insistiram em vão. Até que saíram aborrecidos.

- Igualzinho a mãe! Oh raça ruim que nosso irmão arranjou para formar uma família. Vai ver, essa ai, nem filha dele é. Minha parte eu fiz, quis ajudar, não aceitou, paciência! Saiu ponderando o tio que intentava levá-la para as bandas de Xinguara.

Depois de dois meses da morte dos pais, sem conseguir um emprego, o jeito foi pegar a moto e rondar pelas ruas da cidade quando os meninos estavam na escola, em busca de uma corrida. Negociou a vaga com um amigo do falecido pai que se desfazia do ponto para ir morar em outra cidade onde arranjara um emprego na sua profissão de mecânico. As pessoas estranharam num primeiro momento. Não era comum aquilo. Alguns não confiavam em ver uma garota magrela e alta pilotando uma moto táxi. Por isso encontrou muita resistência.

Ela precisou trancar a faculdade até as coisas se ajeitarem. Distribuiu contato pelo campus. Fez propaganda de seus serviços e aos poucos ia ganhando uma clientela entre os alunos que ligavam com horários certos. Além desses, havia duas crianças que levava e buscava na escola. Tudo acertado por um valor fixo por mês. O final do ano chegava e o pouco dinheiro que ganhava nas corridas, mal dava para pagar as despesas da casa. Aquele seria o primeiro final de ano que passariam sem seus pais. O único conforto que ela tinha era em saber que aquela situação estava sendo melhor do que ter abandonado seus irmãos e terem ido um para cada canto.

Já não via nenhuma perspectiva de mudar aquela situação. Não possuía uma formação. Não sabia fazer muita coisa. Pelo menos havia tirado a carteira no começo daquele ano, logo que fizera dezoito anos. Isso estava sendo sua salvação.

É verdade que nos contos de fadas muitas coisas podem acontecer em poucos tempos. Situações mágicas que mudam as vidas das pessoas. De repente, um mendigo torna-se possuidor de muitas riquezas. Pessoas desprovidas de qualquer beleza física, por encantamento, tornam-se belas e atraentes. Porém, aquilo ali era a vida real. Rebeca sabia que cada centavo era ganho arriscando sua vida no trânsito, pilotando uma moto. Todos os sinais de vaidade da garota de um ano atrás desaparecera. Há muito tempo que não ia a um salão arrumar os cabelos, pintar as unhas. Essas pequenas coisas que envaidecem as mulheres. Não andava feia, desarrumada; mas a profissão a obrigou a adotar um estilo mais rude. Passava o dia com uma calça Jens surrada, uma blusa de mangas longas, um colete e luvas. Do dinheiro que conseguia ainda precisava tirar o valor para pagar Marcela, a filha da vizinha que cuidava dos irmãos até as dez, inclusive ajudando nas tarefas da escola. Quando Rebeca chegava, ela passava o relatório das peripécias dos garotos enquanto ela se desfazia daquelas roupas suadas. Às vezes, por gentileza, a garota, punha a janta para esquentar, enquanto Rebeca tomava um banho e vinha enrolada numa toalha com cabelos molhados devorar a comida.

- Você não precisa fazer isso, Marcela, já está tarde, pode ir embora, protestava ela sempre.

Ao que a menina respondia que fazia aquilo porque sabia que ela chegava morta de cansada, além disso morava a duas casas dali. Depois que terminava os relatos sobre o dia, Rebeca ia até a porta esperar que Marcela entrasse na sua casa.

Aquela vida dura foi-lhe moldando as feições. O corpo foi ganhando musculatura e o corpo da garota magrela e sem jeito, logo tornou-se uma mulher de corpo atraente. As cantadas vinham aos montes. Tanto dos colegas de profissão quanto dos fregueses que passaram a preferir andar na garupa dequela piloto ao invés de andar atrás de outro homem suado.

No entanto, Rebeca não tivera tempo de conhecer o amor. As sensações de seu corpo eram abafadas na hora do banho. Ou quando acordava à noite se queimando de desejos. Naquela cama de casal, ao lado de seus irmãos. Nessas horas, levantava-se. Sentava no sofá na sala. Buscava entre os contatos de seu telefone alguém que pudesse lhe interessar. Quem sabe um paquera. Alguém com quem dividir um pouco sua angústia. Ninguém que valesse a pena. Os homens que a olhava na rua, pareciam feras famintas. Vivia apavorada. Com medo que a casa pudesse ser invadida por um daqueles homens. Muitos sabiam de situação de órfã de pai e mãe.

Contos de fadas já não existem mais. São histórias de outras épocas. Mas o amor ainda pode existir. E, muitas vezes, vem de onde menos se espera. Foi assim que esse sentimento confuso e inesperado entrou na vida de Rebeca.




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CAPÍTULO 2 - O ENCONTRO