domingo, 4 de março de 2018

RESENHA CRÍTICA SOBRE O FILME CORALINE DO PONTO DA PSICANÁLISE


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ASSUSTADOR OU EDUCATIVO?



Aurismar Lopes Queiroz

O filme em desenho animado Coraline e o Mundo Secreto é uma adaptação para o cinema da obra literária Coralinede Neil Gaiman. Coraline, a personagem principal que dá nome à obra, é uma garotinha de 11 anos, que muda com os pais para uma misteriosa cidadezinha. Nesse local, Coraline viverá fortes emoções que lhe propiciarão mudanças internas.
Do ponto de vista da psicanálise, Coraline vive o estágio da vida na qual acontece o fim do período de latência do complexo de Édipo. É o início de um novo período de conflito com relação aos pais, a fase da pré-adolescência. Durante esse período, o sujeito sente o desejo de ter novamente a atenção dos pais. Quer ser novamente o centro das atenções. É justamente esse o conflito vivido por Coraline quando chega a sua nova residência, o Pink Palace apartaments, uma velha mansão de 150 anos, composta por vários cômodos e muitas portas e janelas. Em sua inútil tentativa de buscar diálogo com os pais, que apesar de trabalharem em casa, pouca atenção, ou nenhuma atenção, dispensam a ela, recebe o conselho do pai para explorar a casa. É durante essa exploração que Coraline descobre uma pequena porta, que após ser aberta por sua mãe, vê-se que está selada por tijolos. Foi ainda durante esse dia que Coraline conheceu Wilbert, um garoto que está sempre acompanhado por um gato preto. Esse animal funcionará na narrativa como uma espécie de superego da menina. Coraline recebe desse garoto um estranho presente: uma boneca com as feições dela. 
Nessa noite, logo após se deitar ela tem uma espécie de sonho, onde ver camundongos saírem da parede que isolava a saída da pequena porta. Ao seguir esses animais, ela percebe que no lugar dessa parede de isolamento, abriu-se uma espécie de portal que lembra um útero. Maravilhada ela adentra no portal que a leva a uma realidade paralela. Essa realidade é o reverso do que ela vive no Pink Palace.
Logo de entrada sente um delicioso aroma de comida que toma conta do ambiente, em contraste com a gororoba que seu pai cozinhava todos os dias no Pink Palace. Quem prepara a comida nessa realidade paralela é sua mãe, ou sua outra mãe. Essa mãe é a projeção do desejo de Coraline, é a ação de seu Id[1]. Ela é amavelmente acolhida. Tudo estaria perfeito não fosse um detalhe, essa pessoa, sua outra mãe, possui botões costurados no lugar dos olhos. Seu pai, ou seu outro pai, apresenta-se como um homem alegre e descolado, mas também possui botões no lugar dos olhos. Depois de alimentada a garota é convencida a dormir no local. A mãe passa uma lama em um ferimento que Coraline teve em uma das mãos. Quando acorda, ela está novamente de volta à sua cama na vida real, o portal está novamente fechado, tudo parece ter sido um sonho, porém o ferimento na mão havia sido curado.
Após seguidas excursões a outra realidade onde todos os seus desejos são realizados, Coraline se vê diante de uma decisão a ser tomada. Para continuar a viver naquele mundo perfeito, onde a mãe é perfeita, onde o pai é perfeito, onde tudo é belo, ela precisa costurar dois botões em seus olhos. Essa é uma imposição de sua outra mãe que assim justifica: “Logo você vai ver as coisas do nosso modo”. A partir daí o gato banha destaque, pois ele transita livremente nas duas realidades e será uma representação de Ego[2]. Nessa realidade paralela ele fala e vai mostrar a Coraline que aquele é um mundo criado por sua outra mãe especialmente para ela, Coraline. É um mundo pequeno que vai ao máximo ao redor da casa. Muitas idas e vindas vão acontecer até que Coraline consegue se livrar dessa mãe, que ao ser contrariada transforma-se em um monstro.
O que podemos analisar dessa narrativa? Coraline, como já dissemos, é uma adolescente em conflito que deseja ter novamente os pais “perfeitos” que imagina ter tido na primeira infância. Esses conflitos podem surgir na vida do adolescente em consequência da concorrência com outros irmãos, ou pela falta de tempo dos pais. A “mãe perfeita” da realidade paralela é aquela mãe super protetora, que prende o filho, ou a filha, em sua própria realidade, ou em seu mundo. Do ponto de vista da psicanálise esse fato pode atrapalhar o desenvolvimento da autonomia do sujeito. Por outro lado, a mãe “perfeita”, quando contrariada, poder um monstro que a criança evita.
Coraline e o mundo secreto (o filme) tem todos os ingredientes dos melhores contos de fadas contemporâneo. Tem o mundo em que fantasia e realidade se misturam. Tal como em Alice no país das maravilhas, são os elementos do mundo real que são transpostos para o mundo da fantasia. A passagem para o mundo fantástico lembra As crônicas de Nárnia.
Por isso, as crianças que assistem ao filme sentem um misto de pavor e encanto. Talvez o encanto venha pela identificação com a personagem. Afinal, os conflitos pelos quais passam os adolescentes nessa fase em que saem do estágio de letargia e tem pela frente o novo e desconhecido mundo da autonomia que a pessoa conquista.




[1] O Id, segundo Freud, é a fonte de todo o nosso desejo.
[2] O Ego, para a psicanálise de Freud, é a nossa razão.

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